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sexta-feira, 1 de junho de 2012
sexta-feira, 27 de abril de 2012
quarta-feira, 25 de abril de 2012
terça-feira, 11 de outubro de 2011
A metáfora do real envolta na possibilidade faz Elefante (2003) próximo, enquanto abre mão do fato consumado para criar uma aproximação a partir do “se” dos acontecimentos ocorridos em Columbine. Metáfora de linearidade fragmentada, do tempo vivido, partido enquanto entidade bergsoniana, repleto de historicidade construída. Cresce como um sentimento vazio que ganha dimensões desproporcionais ao ser deixado de lado, e se instala no meio da sala-de-aula para incomodar com sua presença, em forma de um antagonista disfuncional, dos sujeitos excluídos, dos mais fracos da cadeia alimentar, da disfuncionalidade das instituições de ensino e das relações adolescentes. Gus Van Sant. Também o elefante de seu próprio cinema. Do zoológico que é a época entre a escola e a vida adulta. terça-feira, 27 de setembro de 2011
Superstar: The Karen Carpenter Story

Johnny Carson, The Tonight Show, 1973, em entrevista aos e ao Carpenters:
- Eu poderia fazer uma pergunta boba? Com todo o sucesso que vocês estão tendo, vocês estão mais felizes agora do que quando começaram? Entendem o que quero dizer?
Karen: Claro! Apenas tão ocupados quanto mais felizes. Mais Felizes?
Estocolmo, Suécia, 1969:
Entrevistador: - Seus pais lhe encorajavam a cantar?
- Janis Joplin: Não, não, não. Eles queriam que eu fosse uma professora, sabe como todos os pais querem para seus filhos. Mas comecei a cantar por volta dos dezessete anos, e ouvia muita música e um dia comecei a cantar e gostava de cantar.
A boneca barbie desde 1959. Os padrões de beleza desde sempre. Para cada estrela apenas uma vez, e, portanto, uma existência enquanto intensa ao mesmo tempo curta. Se a música não precisa de forma para existir, enquanto Amy nos deixa, Janis se retira, Karen lutava contra si própria, a indústria cultural ao todo, enquanto tudo e do tudo para o nada.
Tal como narra Todd Haynes em seu filme, a fama cantada, vivida, fotografada, filmada e estrelada por e para Karen Carpenter em seu caso de amor mal sucedido pela perfeição. A música no intermédio das dores e fantasmas internos de seus cantores, denúncia da sociedade, do passado e do presente cultural agridoce da cinematografia de Haynes e da voz de Karen em forma de música aos olhos do cinema.
A princípio pode parecer estranho a forma pela qual Todd Haynes resolveu captar a essência dos problemas de aparência de Karen Carpenter; construir uma narrativa em forma de Era uma vez... ambientada em uma casa de bonecas onde barbies circulam em cores e formatos diferentes a fim de captar a essência da anorexia nervosa de sua protagonista, gera um estranhamento curioso, do tipo corriqueiro em biografias, a licença de olharmos por entre o buraco da fechadura para fatos públicos com pessoas públicas, em vidas públicas. Fica a sensação da ironia que Haynes não pôde deixar de contestar num mundo ligado à aparência, aos rótulos e ao desgastes dos invólucros superficiais da matéria corpórea:
“ Arte é objetivação da vontade numa coisa ou numa representação, e a provocação ou estimulação da vontade. Do ponto de vista do artista, é a objetivação encontrada de uma volição; do ponto de vista do espectador, é a criação de um cenário imaginário para a vontade”, Susan Sontag – Contra a Interpretação.
Natural que escolha bonecas com o ideário de perfeição física dos EUA, loiras, magras e de olhos azuis, de plástico, irreais, inalcançáveis, deformadas pelo desenho simétrico das lojas de brinquedos. E tal simetria ganha um ar macabro quando passa a ser violada através de deformações no corpo e rostos das bonecas ao longo do filme. Quanto mais Karen emagrece, mais suas bonecas vão se desgastando e a cantora some em meio à sua doença.
A violência simbólica é amplificada na mente de Karen e na lente de Haynes. Os espelhos, a voz melodiosa de Karen, os vidros de laxante, a comida desejada e repudiada ao mesmo tempo, a silhueta perfeita a ser alcançada, os gritos, a dor, as barbies, as instituições familiares falidas, o casamento, as roupas, o divórcio, as apresentações públicas para a construção do perfeito produto a ser vendido para os lares. Os irmãos interioranos talentosos musicalmente, e o ideário de pureza visual e musical que Karen canta para vender discos e imagem. Uma imagem falha, que liga e desliga a todo o tempo, de plano para plano, como um número musical inacabado, uma voz que continuou a ser ouvida apesar do corpo e da ausência física. Os Carpenters viram lenda pop, pela tragédia, pela morte, pela imperfeição, pelas notas musicais, por nós. Menos por eles mesmos. E por Karen.
Longe do paraíso mais uma vez, o diretor celebra e critica a forma como construímos nossos ídolos e como os colocamos na desconfortável posição de exemplo a ser seguido. A trilha do filme, permeada pelas canções da dupla desferem a razão de ser de seu filme. Uma biografia com pinceladas de realismo fantástico e imediatismo, onde forjamos nossos ídolos e eles a si próprios, num jogo visual arbitrário, em um cenário musical feito de grandes talentos absortos em seus problemas pessoais e na intervenção midiática necessitada de grandes estrelas por minuto. Cabe aos próprios ídolos forjarem a si mesmos, e a nós continuar seu legado através dos discos de canções nunca gravadas, de músicas interpretadas por outras bandas, dos especiais de televisão sobre suas vidas e das biografias cinematográficas. Do corpo humano que cede a pressão ter de ser representativo, diante do ser humano, com suas segundas-feiras e dias chuvosos.
sábado, 27 de agosto de 2011
Mais do mesmo
Virei a noite me perguntando se conseguiria colocar em sentenças o que eu sentia, não por não saber utilizar as palavras, as palavras certas ou erradas, as expressões familiares, as piadas internas, a intimidade do você. Eu tive medo de como me sinto ultimamente, do nada que estamos sendo ultimamente, da distância e dos mal entendidos. O que me entristece, pois já passei da fase da mágoa em relação ao nós aqui, se a gente ainda existir no plural, é que ambos parecemos não nos importar em sermos só a gente, um sem o outro. Deixamos de ser nós, e somos só, sós, sozinhos, um por cada um e nenhum dos dois pelo outro.
Não que eu possa cobrar nada de ninguém ultimamente. Não tem sido bom do meu lado da estrada, por assim dizer. Não adianta mais que você ou qualquer outro me espere do outro lado, eu destruí as pontes entre o que restava de mim e do mundo. Não existe convivência pacífica entre o interno e o externo ultimamente. Não vinha conseguindo conviver comigo, com Isabel, com ninguém. Acredito que cheguei a um nível de depressão tão grande, que me fiz externa a tudo e a todos. O que não posso perdoar é o fato de que quase perdi tudo o que tinha com minha irmã, e saiba que sem ela não existe vida, ou alegria, ou lágrimas, ou brisa, ou música ou o meu eu. Eu parei de existir, por tanto sentir, por tanto ressentir, por tanto gostar, por tanto que eu fiquei com nada. Principalmente pela mania de não falar o que sinto, antes que se tranforme em um nunca mais.
O que foi injusto de sua parte para comigo, e dói mais do que tudo admitir que me sinta assim, foi o descaso. A falta de valor, a simples substituição. Sei mais do que ninguém como é repelir proximidade depois de ter deixado alguém adentrar a menor parte que seja de mim, da minha vida. Eu faço isso como um movimento reflexo. Gostaria de não ser assim. Enquanto me abro eu já sei que será difícil fazer aquilo tudo novamente. Mas parecia valer a pena conosco, apesar dos pesares e apesar de nós mesmos nos sabotando a todo momento. Porque éramos e somos tão inadequados que parecíamos funcionar por completo. Tenho me acostumado com a rejeição ao longo dos anos, e por tal, quando eu vi Isabel sendo sempre a mesma, me amando como sempre me amou, continuando a fazer as mesmas coisas por mim, mesmo quando eu me sentia a última pessoa do mundo, isso criou uma espécie de culpa envolta em impaciência para com ela. Por que eu parei de acreditar que se amasse tanto alguém assim, que alguém poderia ter uma parte tão preservada assim, que eu nunca mudaria apesar de tudo que eu vinha fazendo ou deixado de fazer em nossa fraternidade antiga de desde sempre. Que o amor fosse algo tão incondicional mesmo diante da pequenez da gente. Das minhas imperfeições, da falta de demonstrações. E mesmo vendo meu lado mais sombrio, ela continua aqui. Diante de tudo, a revolta diante de tamanho altruísmo, diante de todos, menos de mim mesma. Eu não me sentia boa para ninguém, suficiente para ninguém, interessante para ninguém, cansada, eu acho. Como se já tivesse oferecido tudo o que eu tinha e tivesse ficado vazia, no vácuo. De todas as nossas discussões, gritarias ou lamentos, de dias mal falados, de frases ditas sem se pensar duas vezes, fica a necessidade que tenho da minha irmã e ela de mim. Quando ela me disse que me amava não pelo esforço, mas pelo nada que eu fazia e que já em sí era suficiente para se amar qualquer que seja, eu me achei suficiente novamente, e não inteira mas de pé. De pé diante dela.
Então, quando escolhemos que nada vale a pena, que ninguém vale a pena o esforço de se estar junto, talvez seja pela mania de não nos acharmos suficientes para estar com ninguém. Me diga se pode ser isso, pelo menos uma parte ínfima da pessoa que você se deixa mostrar ao mundo. Pois vejo você se partir em vários, em vários lugares, com várias pessoas, menos comigo. E vem aquela velha sensação de culpa que relegamos à intimidade dos corpos e das essências. Precisamos das futilidades das relações para nos mantermos, para seguirmos pelas mudanças. Mas nos reduzimos a isso? Não me assusto com nossas mudanças, por não nos reconhecermos mais. Mas o que me tira o sono quando coloco a cabeça no travesseiro é pensar em um dia que não sentirei mais falta de você, estando acostumada a você não estar lá por mim e nem a precisar de mim. Precisamos precisar das pessoas mesmo que isso nos faça sentir vulneráveis e humanos por conseguinte. Vulnerabilidade, fragilidade, capacidade de se recompor mesmo achando que nunca mais será como antes. Porque já perdemos nossa certeza lembra? Porque viver de auto-preservação a esse ponto? Por que temer sempre dizer como se sente? Por que precisamos sentir tudo ao mesmo tempo só para não sentirmos nada no fundo? Intimidade nem sempre pode nos salvar de quão mal estamos nos sentindo, mas uma vez perdida, deixada ao acaso, deixada se sentir culpada por termos nos mostrado, partidos, velhos, crianças tateando uma solução. Deixamos a intimidade e ela a nós. E as pessoas também se vão. Aliás elas não irão mais estar. E diante de tudo, a questão que mais me entristece é me perguntar se tudo que vivemos juntos terá valido a pena diante da covardia em nos expormos e de sermos suficientes para um pequeno público privado, íntimo, parcial, entre quatro paredes, sem sala, sem porta da rua.
E eu me pergunto se você ainda sente que exista lados nessa estrada não para esperamos um ao outro, mas para nos encontrarmos ao mesmo tempo.
Eu me pergunto, esperando que você se pergunte também, pois ambos não precisamos perguntar um ao outro isso, mas sim a nós mesmos.
Bem, eu me pergunto.
sexta-feira, 26 de agosto de 2011
O mito do sujeito pós-moderno presente em A Rede Social
A contemporaneidade é uma equação inexata entre cosmopolitismo e encarceramento pessoal, entre rememoração do passado em um presente nostálgico, entre o alcance tecnológico quase que ilimitado da globalização e perda do sujeito no discurso pós-moderno. O cinema desde sempre foi um marcador temporal, um retratista imparcial e passional do mundo e das pessoas que o criam, projetando em imagens e sons aquilo que o cerca e sua idéia de mundo.
Os filmes configuram uma sociedade pós-moderna envolta com seus brinquedos tecnológicos, suas culturas dissonantes convivendo em diferentes países, e tempos mortos e passagens cronológicas em forma de mudanças nas cidades e no cinema. Do cinema das cidades, das cidades recriadas ou retratadas pelo cinema e da miudeza do homem quando colocado como agente transformador da multiplicidade cosmopolita.
A memória pós-moderna se concentra no passado em forma de presente como ponto de partida e estudo para o sujeito do agora. A figura do flâneur nunca se fez tão próxima do real quanto na atualidade. O século XXI é permeado pelo afastamento pessoal nas grandes metrópoles, a perda da identidade pessoal em um mundo pluralizado de opções, a solidão da nostalgia dos tempos antigos que não voltam em choque com o desenvolvimento das cidades e das revoluções econômicas, sociais e culturais que englobam o universo do homem em sua estada pelas ruas e estradas em que vagueia sem rumo, pelo mundo em que habita e é repelido, pelo choque cultural da globalização e convívio com outras culturas estranhas a determinados indivíduos.
O cinema captura suas imagens e resignifica tanto sujeito quanto cidades. E desse paralelismo artístico surge uma nova forma de retrato: o culto cinematográfico como escape e visualização pessoal do que ocorre no mundo, nas cidades que habitamos e que habitam em nós, mesmo que à força da globalização, da nostalgia, da solidão cosmopolita e do desenvolvimento tecnológico. O cinema como fuga da realidade, como transferência do sujeito para o outro para poder visualizar seus problemas e a si mesmo, o escape cinematográfico como ponto de partida para um esclarecimento sócio-cultural do sujeito pós-moderno. O cinema enquanto entidade existencialista:
[...] Nunca como hoje tive o sentimento tão forte de ser alguém sem dimensões secretas, limitado a meu corpo, aos pensamentos superficiais que sobem dele como bolhas. Construo minhas lembranças com meu presente. Sou repelido para o presente, abandonado nele. Tento em vão ir ter com o passado: não posso fugir de mim mesmo.Para que o mais banal dos acontecimentos se torne uma aventura, basta que nos ponhamos a narrá-lo.Quando se vive, nada acontece. Os cenários mudam, as pessoas entram e saem, eis tudo. Nunca há começo. Os dias se sucedem aos dias, sem rima, nem solução: é uma soma monótona e interminável. De quando em quando, chega-se a um total parcial, dizendo: faz três anos que viajo, três anos que estou em Bouville. Também não há fim: nunca deixamos uma mulher, um amigo, uma cidade, de uma só vez. E todos os lugares se parecem: Xangai, Moscou, Argel, ao fim de uma quinzena é tudo igual. Por alguns momentos - raramente - avaliamos a situação, percebemos que nos envolvemos com uma mulher, que nos metemos numa confusão. Por um átimo. Depois disso o desfile recomeça, voltamos a fazer as contas das horas e dos dias. Segunda, terça, quarta. Abril, maio, junho. 1924, 1925, 1926. [...] (Sartre, A náusea).
4 – A solidão da superpolução pessoal: A Rede Social enquanto mito do sujeito pós-moderno.
A transcendência se encontra em ultrapassar os limites físicos da interação assim como o conformismo do conforto proporcionado pelas diferentes redes sociais (orkut, facebook, twitter, entre outras) uma vez que as mesmas criam laços afetivos advindos da cibercultura. Pessoas se conectam por identificação, mesmo sem se conhecerem, por gostos iguais, por perfis interessantes, ou até mesmo apenas pela necessidade de acumular pessoas, uma espécie de valor numérico que contabilize os amigos virtuais.
A exposição e subjetividade do “eu” bate de frente com a riqueza e poluição do mundo globalizado, em junção de símbolos e significantes criados para serem burocráticos, acessíveis, mas que se tornam válvula de escape para a não socialização presencial. Se A Rede Social funciona como retrato visual e narrativo de uma cronologia temporal, é no contexto cultural do imediatismo que encontra significação e verossimilhança, desta feita criando o mito:
Seria, portanto totalmente ilusório pretender fazer uma discriminação substancial entre os objetos míticos: já que o mito é uma fala, tudo pode constituir um mito, desde que seja suscetível de ser julgado por um discurso. O mito não se define pelo objeto da sua mensagem, mas pela maneira como a profere: o mito tem limites formais, mas não substanciais. Logo, tudo pode ser mito? Sim, julgo que sim, pois o universo é infinitivamente sugestivo. Cada objeto do mundo pode passar de uma existência fechada, muda, a um estado oral, aberto à apropriação da sociedade, pois nenhuma lei, natural ou não, pode impedir-nos de falar das coisas. (p. 131)
(...) Não existe, evidentemente, uma manifestação simultânea de todos os mitos: certos objetos permanecem cativos da linguagem mítica durante um certo tempo, depois desaparecem, outros substituem-no, acedendo ao mito. Existem objetos fatalmente sugestivos, como a mulher para Baudelaire? Certamente que não: pode conceber-se que haja mitos muito antigos, mas não eternos; pois é a história que transforma o real em discurso, é ela e só ela que comanda a vida e a morte da linguagem mítica. Longínqua ou não, a mitologia só pode ter um fundamento histórico, visto que o mito é uma fala escolhida pela história: não poderia de modo algum surgir da “natureza” das coisas. (Barthes, Mitologias, 1972).
O mito presente no filme de Fincher é a manifestação do real no virtual e vice-versa. Numa sociedade competitiva e estratificada como a norte-americana, sites de relacionamento são mais do que escape, por que não dizer uma realidade paralela ao universo central da trama tanto do filme quando da sociedade do agora. O sujeito de convívio social precário, se impregnando em todas as partes do globo terrestre, em espaços onde nem mesmo há a circulação natural das pessoas (“Bósnia? Eles não têm estradas, mas tem facebook” é uma fala proferida por um personagem secundário) constroem pontes imagéticas e invisíveis entre nações e sociedades. Mas de fato, a congregação social não é seu alicerce, mas sim, a lei da oferta e da procura em um mundo que se faz à sombra de si mesmo. Existindo literalmente a formação de cidades dentro do facebook (o aplicativo do cittyville permite ao usuário construir a cidade de seus sonhos, desde que possua vizinhos suficientes para compartilhar produtos e conseguir passar de nível). A interação virtual mais uma vez conseguida através do contexto hiper-real de seus jogadores. A representação do real através da arte, do filme, da rede social, dos aplicativos, das redes de comunicação globalizadas:
Sair só é a única preocupação das crianças até uma certa idade. Depois continuar a sair só. E quando já para nós esse prazer se usou, a rua é a nossa própria existência. Nela se fazem negócios, nela se fala mal do próximo, nela mudam as idéias e as convicções, nela surgem as dores e os desgostos, nela sente o homem a maior emoção. (João do Rio, Alma encantadora das ruas).
Se Foucault via a sujeição dos corpos, o vigiar e o punir, David Fincher segmenta um valor sintomático do século XXI: a solidão através da superpopulação simbólica da subjetividade humana. A cibercultura, os novos mundos, o antigo e o novo código social em paralelismo à ascensão da internet, juntamente com o capitalismo lógico e mais que presente de Jameson, segmenta os valores e o modo de vida atual: amigos distantes, perfis sociais populares, dinheiro como sexo, sexo em forma de prestígio social, cinema como escape, cinema como retrato sócio-cultural do sujeito.
Em um diálogo entre Mark Zuckerberg (Jesse Eisenberg) e Sean Parker (Justin Timberlake) fica clara a noção de novos tempos, hibridismo social, e a distância e o choque cultural de gerações: “Tinham medo de mim, como terão de você. Os investidores (a antiga sociedade patriarcal, os valores ultrapassados, constituintes da História enquanto predecessores das mudanças) dirão: - Boa idéia garoto. Os adultos assumem daqui em diante. (a noção de dicotomia entre amadurecimento pessoal em contraste ao gênio intelectual criador de cifras e empresas ao redor do planeta) Mas não desta vez. É a nossa vez.”.
Tanto jovens quanto adultos perderam a guerra. A já citada opacidade deleuziana é evidenciada na cena em que Mark diz ter conseguido expandir a empresa, através do telefone, ao seu futuro ex melhor amigo Eduardo (Andrew Garfield). O protagonista está do outro lado do vidro, embaçado pelas bebidas e pessoas, fora de foco, e à parte da comemoração que está acontecendo naquele momento graças a ele mesmo. O criador se sujeita aos desejos de suas criaturas, o site cresce enquanto Mark encolhe, perde amigos, confiança, convívio social. O capitalismo evolui, a empresa se multiplica como um cão de várias cabeças, mas sem um corpo firme. A fragilidade do personagem é o seu olhar para o mundo que não toca, mas que recria e cria no virtual, por pulsões, visualizações das necessidades dos usuários e quase como um sujeito em terceira pessoa, seu “eu lírico” é a junção de todos os perfis atrelados ao site do facebook. Mark é bem sucedido financeiramente, mas faz o caminho reverso em termos de identidade social e pessoal:
“A natureza deu ao artista a capacidade de exprimir seus impulsos mais secretos, desconhecidos até por ele próprio, por meio do trabalho que cria; e estas obras impressionam enormemente outras pessoas estranhas ao artista e que desconhecem, elas também, a origem da emoção que sentem”. (Freud, 1910, pg 64).
A rede social fala da dissolução do sujeito Mark e de seus relacionamentos interpessoais. A cena final baseia-se no conceito da criação do facebook: Mark clica em adicionar sua ex-namorada à lista de amigos, enquanto irresoluto clica em atualizar a página para ver se a moça aceitou ou não seu convite. Se anteriormente ela o rejeitou, agora participa de seu site, de sua criação, mas não de sua vida. De qualquer forma, ali está a internet como presença dicotômica estabelecida no contraste da união e distanciamento social.
A pós-modernidade em geral coloca em xeque a queda de muros, das fronteiras, o desenvolvimento dos aparatos tecnológicos como condições sócio-culturais e temporais do desenvolvimento humano. Mas o contraste entre evolução científica e involução dos relacionamentos entre os homens é um fato e não apenas um conceito. Um conceito factual. Mark cria seu mundo paralelo para adentrar as diferenças de classe dos clubes exclusivos de Harvard, cria amizades virtuais e dissolve-as em presença, cria dinheiro e o descarta ao mesmo tempo, cria a si mesmo em diferentes línguas, formatações e windows e ao final de sua jornada cinematográfica enquanto personagem, sua individualidade se perde na pluralidade de sua rede social. Sabemos dos limites ultrapassados pela tecnologia, pelo multiculturalismo burocrático cibernético, mas no tocante às interações humanas, ainda não se tem uma fórmula ou uma conexão exata.